segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Asas, luas e céu

Já não se vê nada além da lombada amarela por ali.
Nem o violão, nem a bicicleta, nem o garoto e seus arranhões de tentar subir pela parede.
Para vê-la de perto, pela janela.

Todos os dias, ao cair da tarde, descia e batia o ponto no batente.
O meio-fio que ladeava o apartamento térreo do prédio, que ainda era verde.
Dali dava pra fingir que era só uma conversa de praxe com os amigos.
Até que ela aparecesse.
Então apoiava a bicicleta na parede e subia.
Ela sorria.
Não podia sair àquela hora.
Mas parecia mesmo mais bonita dali, emoldurada na janela.

Vez por outra ele arriscava, desafinado, uma música em seu violão, dedicada a ela, como tudo que fazia aquela noite. Todas aquelas noites.

E ela nunca desconfiou.

Era diferente de tudo que já havia experimentado. Um metro e meio de milhões de sensações prestes a explodir.

O garoto que vivia sozinho sentiu-se preenchido com aquela alegria, deslumbrado com tanto afeto, tanta paz.

Cada abraço ele guardou, cada beijo, na memória. Os cheiros, a voz, aquela música que ela cantava, quase que sussurrada. Ficou envergonhado de retribuir a tudo isso com um CD pirata e algumas palavras, quando ela disse que partiria.

Ela não era dali.

E pra lá voltou.

Ele ficou.

O amor ficou.

A paixão secou.

Restou a saudade.

A vontade de ter denovo aquela pequena mão segurando a sua orelha. Em algum lugar no vazio que ela deixou, repetia o gesto, como se pudesse trazer de volta os momentos.

Por muito tempo, ao passar por ali, olhava para a janela, morta, na esperança de vê-la, ou de ouvir a notícia de que voltara. Em vão.

Emanuela era um pássaro, de beleza imponente, que nunca mais pousou.